Qual é o som da vida em meio ao espaço menor e mais sem luz que pode existir
O cheiro do orvalho respinga sobre os restos da noite e goza de sussurros doces a manhã
No minuto do toque dos sinos da pequena catedral e sopros de flores pela cidade
Onde estão os gritos dos pequenos meninos brincantes e das mulheres sedentas das dores do dia
Onde estão todos
E o dia se faz num cotidiano calado
A água se escoa pela dor do amanhecer e ri do que deixou pra trás
Calam-se as mães, os pais, os homens de bem e o vento
Calam os padres pela dor da servidão que os cala
Calam as avós e os doces esperando o sorriso de seus netos
Calam as prostitutas caladas pelo falo que lhe és imposto goela abaixo
Cala a fome no estomago adoecido adormecido num chão de rua qualquer
Calam as belezas e as feiúras
E o cheiro do orvalho respingado para reconfortar as carcaças
Só fala a dor...
A dor fala dentro dos olhos
Nas mãos de cada um
Nos pés que se arrastam passo a passo como se buscassem só mais um passo
E vem mais uma noite pra calar tudo que foi calado outra vez
