terça-feira, 26 de agosto de 2008

Menino-dia

Menino-dia
Que cheira terra molhada
Come saúva
Brinca no galho

Borboleta doce
Voa no quintal
Gota pequenina
Orvalho-brisa

Noite chega
Toca seu cabelo
Abraça o coração

Dorme anjo doce
Sonha com o ser grande
Deixa de ser menino-dia

Poema Feliz

O que pode ser do amor
Derrubada de sangue
pelos olhos tristes de outono
Vagueia o pensamento
na derrocada do ser
Amêndoa escura densa de angústia
voa pelos campos de silêncio estampido
Garoa fina na pele triste
Pérfido estremecer percorre os pêlos
pelos braços e corrói até as vísceras
Quando se entrega a alma
com um sorriso para teus dentes
me respiras nos poros
e expele o gosto de Vênus
embebido de teu ser

O Silêncio

Qual é o som da vida em meio ao espaço menor e mais sem luz que pode existir
O cheiro do orvalho respinga sobre os restos da noite e goza de sussurros doces a manhã
No minuto do toque dos sinos da pequena catedral e sopros de flores pela cidade
Onde estão os gritos dos pequenos meninos brincantes e das mulheres sedentas das dores do dia
Onde estão todos
E o dia se faz num cotidiano calado
A água se escoa pela dor do amanhecer e ri do que deixou pra trás
Calam-se as mães, os pais, os homens de bem e o vento
Calam os padres pela dor da servidão que os cala
Calam as avós e os doces esperando o sorriso de seus netos
Calam as prostitutas caladas pelo falo que lhe és imposto goela abaixo
Cala a fome no estomago adoecido adormecido num chão de rua qualquer
Calam as belezas e as feiúras
E o cheiro do orvalho respingado para reconfortar as carcaças
Só fala a dor...
A dor fala dentro dos olhos
Nas mãos de cada um
Nos pés que se arrastam passo a passo como se buscassem só mais um passo
E vem mais uma noite pra calar tudo que foi calado outra vez

O cabresto

Os aplausos vêm das belezas da chuva
E as ruas alastram as sombras das incautas
Nas poças, as almas dos homens de sobretudo e seus jornais cinzas de suas próprias vidas
As conversas de lado colocam-se ao pé-do-ouvido e surgem os murmúrios do escárnio
As ruas se misturam à multidão fétida e cabisbaixa e os gritos de socorro são ouvidos pelos surdos
Gotas de sangue dos cavalos e a saliva cheia de câncer tomam as mãos rachadas e a cabeça vã
O espelho reflete a vontade
E a ignorância escorre pela boca sem dentes e os olhos sem letras

Ausência

Busca por tudo
por tanto
por todos
Tudo que tanto me incomoda
Quero ser incomodado por nada
O nada me agrada
Quando nada me incomoda
Nada me aflige
Nada me invade
O nada
Deliciosamente ter nada a fazer
o sublime nada em comum
simplesmente dois a fazer nada
nada tão grandioso
Ausência pura e minimalista do tudo

Alvorada em mim

Amanheça em minha boca
e as palavras com gosto de beijo
na noite que se vai
deixando o céu carmim
O cheiro de amor no quarto embebeda
e voltamos a nos olhar
Simples é o amanhecer
da silhueta se faz o mais belo contorno
e ofegante dizes que és minha
Cada gota que percorre seu corpo
sente o sabor da pele
e lava suas coxas de pecado vermelho
Me chame de encontro ao seu gozo
e me queira num gemido mudo
apertando com os dedos de menina
e mordendo com a boca de mulher

Alma Rubro

A cama exala cheiro de vida no quarto sabor de fruta, desfrute
Efemeridade se faz presente num instante eterno
Vem o gozo da vida devida, de vida
Em suas vísceras um momento para sentir a vitalidade
Onde se depara com o maior de nós lá no cantinho esquerdo
por detrás da árvore de ar limpo e maçã nova
Maior lá de que em qualquer outro lugar
grande ou pequeno que se possa tocar
Ali é de sentir, permitir
Ali é rio farto e menino sedento e medroso não entra
E o imenso do outrem é apavorado pelo medo de alguém
Quem era grande de fora se torna pequeno de dentro
O medo pequeno de fora é desespero grande do pequeno dentro
Rio vermelho de néctar escoa e segue até a alma agora rubro
O dia então se faz com a licença poética da noite num beijo de alvorada
Como sonho de menino grande e pequeno que não tem mais medo

A Precariedade do Ser

Queria te entender por vaidade e usar tudo para o simples deleite
Sou vaidoso e o que importa
Afinal quem não é
Não sei se entender é o que me envaidece
Ou a simples precariedade mostra o quão tolas e sutis são as nuances do desejo que rasga, fere e afaga
O ser se mostra na precariedade
Isso é ser humano, pés no chão de terra molhada
E como é bom estar precário, jogado
acreditar na providência e brincar de Dionísio
Ser o que quiser quando quiser
Ser ao mesmo tempo menino sonhador e homem que voa
A pungência doentia de um árido sofrimento
se esvai pelas pernas quentes de mulher
e sacia na mão dura a vontade

Um dia difícil...

Nem gozar posso mais? Não posso gemer? Não podemos gemer?...Ninguém geme alto nessa terra? É só silencio. Um silencio inócuo e estéril, esterilidade frutífera de gente plastificada, cheia de estética, melindres e não-me-toques. O physique du role disparatado de terra seca, do racionalismo, do pseudo-amor intelectualizado. Todos atrás de ares descolados, de uma suposta geração IN. O ser humano é muito louco. Outro dia vi uma roda de cinco, seis pessoas, com seus Ipods e vestimentas pós-modernosas na porta da faculdade, simplesmente para fumar um baseado...risos. Tão modernos e repetidos. A modernidade que te faz enraizar e ao mesmo tempo se esvair como uma árvore doente ao toque do primeiro vento mais forte. Loucura total!!! Quanta tribo na modernidade, tribos high-tech. O homem querendo se humanizar, querendo se sentir próximo de outrem, se utilizando de subterfúgios rasos, porém tão ou mais só que antes. Relações rasas, sem alma. A mulher cristã até virou os olhos para não ver, mas deixou o nariz alerta para se sentir um pouco índia também. Um ato ritualístico milenar em meio a outro ritual muito conhecido hoje em dia: “A Antropofagia da Essência Humana”. Um menino, um cara, passa correndo escadaria acima na maior disposição atlética, com seu copo de cerveja sem derramar sequer um gole para os insetos e entorpecê-los da indignidade humana. Coitados dos insetos, olham pasmos para toda aquela correria, gritaria, todos enlouquecidos falando ao mesmo tempo, barulho, barulho, barulho, muito barulhooooo...Buuummmmm!!! Muito mais pontos de exclamação!!!!!!!!!!!! Depois da explosão o silêncio. Voltamos a falar do silêncio. O estéril. Tente escutar o silêncio. O silêncio ensurdecedor de Hiroshima. O silêncio que faz o homem lidar com a sua “autossuportabilidade”, se é que existe essa palavra, ou não. Qual seria o grito que surgiria do rim, do fígado, das entranhas, de qualquer porra, no caso da segunda hipótese. Não respiro. Aliás não expiro. Sento-me ali com as formigas que observam a decadência humana e comemoram, pois serão a nova espécie dominante. Afinal, elas têm uma vida de trabalho muito mais árdua de que a nossa. Não é isso que prega nossa vã-filosofia? Quero prender aquele momento inteiro dentro de mim. Cristalizar a lama, o caos, luzes, fotografias recortadas de cores insossas, sem vida. E os sorrisos? Quantos sorrisos clamando por outro?! O sorriso que disfarça o nó da garganta da menina rejeitada, e regurgita um amarelo, monolítico, dessa vez vibrante e que perdura. A menina que não é ela, não é só ela, e sim todas elas. E eles. E nós. E as formigas festejam e se embriagam no seu dia de folga, apenas observam, talvez sem saber, o futuro delas. Quero voltar a ser índio!!!

Talvez

Talvez tenha feito da minha vida mundo
Do meu mundo vida
Fosse melhor um despedir mudo
Que a lágrima da partida
Talvez quisesse da casinha o fundo
E lá descansasse da lida
De chão batido imundo
Pra ter minha solidão acolhida
Talvez me sentisse só
Só de solidão sofrida
Feito da minha vida pó
Do pó que é feita a vida
Talvez fizesse do canto meu cafundó
De forma desenxabida
E não desatasse o nó
O nó de uma garganta doída
Talvez seja o reverso do nascimento
A gota de sangue escorrida
O choro alto do rebento
Uma vida interrompida
Talvez seja o homem sedento
A terra prometida
A mão do avarento
Pela dor esculpida
Talvez seja só um ingrato
Filho de uma ferida
Ingênuo de fato
Tristeza escondida
Talvez fino de trato
Chama encolhida
Um nobre nato
Ou um erro na vida